Durante os vários séculos de extensão da África
romana, foram produzidas significativas mudanças no que se refere à arquitetura
doméstica. Houve uma evolução das plantas, dos volumes e das decorações,
modificando o interior das casas.
Existem grandes diferenças de acordo com a
localização da moradia, quando se encontra em um bairro densamente povoado ou
em uma área periférica que se desenvolve aos poucos. Esse contraste é
evidenciado quando um programa de colonização, que conduz a criação de um
centro urbano, dá resultado ao núcleo da cidade, onde uma rede de ruas delimita
quarteirões. O que torna difícil a criação de domus (propriedade grande, sofisticada e luxuosa em regiões
residenciais). As grandes casas surgem, então, nos bairros periféricos, onde
tem menos restrições.
Por exemplo, a colônia Timgad, fundada no ano 100
pelo imperador Trajano. Em Timgad, o
espaço urbano foi dividido em quarteirões de mesmo tamanho (sendo o foro e
alguns grandes monumentos públicos, exceções).
Parte da planta da colônia de Timgad (E. Boeswillwald, A. Baliu, R. Cagnat, Timgad, une cite africaine sous
l'Empire romain, Paris, 1905, p. 337, fig. 166). |
Essas quadras eram divididas em
lotes que eram destinados às moradias. Como a organização desses quarteirões
reflete uma situação social homogênea, impediu o desenvolvimento das domus,
cuja área pode ser dez vezes maior que a das quadras. Assim, as domus foram
construídas nos espaços periféricos.
| Timgad, casa do Hermafrodita. |
É complicado deduzir regras segundo as quais se constroem casas mais
ricas sem considerar a história de cada colônia. Por exemplo, diferentemente de
Timgad, Thugga e Bulla Regia possuíam um tecido urbano menos estruturado, o que
favoreceu a criação de ricas moradias próximo ao núcleo da cidade, mesmo que
com áreas menores. Já o exemplo de Volubilis, que nunca se sujeitou a um
estrito urbanismo ortogonal, é comparável ao de Timgad, as vastas residências também
surgem na periferia.
Nas cidades mais modestas, as elites locais instalam
suas residências onde for possível, inclusive lotes muito irregulares ou
pequenos demais. É aí que surgem os andares subterrâneos de várias casas ricas
de Bulla Regia.
Alguns princípios gerais sobre a evolução das cidades africanas: nas
cidades que se desenvolvem, as elites tendem, por razões de espaço, a
transferir suas casas para a periferia. Nas cidades com menor dinamismo, a
oposição entre os diferentes bairros parece menos marcada e as casas ricas
conseguem se desenvolver, bem ou mal, num quadro que não conhece dilatação.
Uma possibilidade ao desejo de
expansão dos proprietários seria restringir os eixos de circulação em proveito
das moradias, ou seja, invadir as ruas. A escavação da insula de caça permitiu
acompanhar os detalhes de como ela realmente se dilatou. Ao contrário do que se
acreditava, que o desenho ampliou de uma só vez, já que a transferência de cada
uma das paredes da fachada constituía uma operação única, dando o efeito no
estado final de conservação da regularidade da implantação primitiva, na
verdade, a evolução da insula resulta do acréscimo de uma série de operações
sucessivas.
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Tudo isso
ocorreu durante trabalhos realizados nas vias públicas, os proprietários se
aproveitam para empurrar uma parte de suas paredes externas, fazendo um avanço
que passa a integrar as fachadas. E ao que se parece, tais condutas não incoerentes,
visto que foram conduzidas com o aval das autoridades locais. Já em outra
situação, um proprietário da casa de caça quis instalar um tanque para suas
termas particulares à custa de uma rua, e essa tentativa foi abortada pelas
autoridades. Portanto, até o século IV, os poderes locais aparentemente
permanecem bastante fortes para controlar a maior parte dessas retificações do
cadastro. Isso parece bastante provável no caso de vastas operações conduzidas
de modo muito coerente: assim foi em Útica, onde as fachadas de várias insulae
avançaram em detrimento da rua sem quebrar seu alinhamento.
Após alguns séculos, verificou-se
que a dilatação da insula da caça tinha um espaço ganho corresponde a menos de
200m². Então, apresentou-se outra possibilidade mais aceitável que seria anexar
a totalidade do espaço da rua, isso permite não somente conquistar um espaço
público mais vasto, como também ainda efetua a fusão de terrenos que em outro
momento estavam separados pelo eixo de comunicação. Essa operação modifica
violentamente a paisagem urbana, por exemplo, em Bulla Regia, a extensão da
casa da pesca transformou uma ruela em beco sem saída. Já no centro da colônia
de Timgad, esse procedimento permite aumentar o modo considerável área
primitivamente atribuída a cada ilhota autorizando a fusão de algumas delas.
Contudo,
numerosas medidas mostram as autoridades na defensiva diante dos excessos de
indivíduos que se instalam indevidamente ao lado ou dentro de edifícios
públicos, assim desfigurados pelo acréscimo de parede de madeira ou de
alvenaria improvisadas. Em geral, o Estado tenta elaborar medidas destinadas a
harmonizar as relações do público e do privado, e as autoridades às vezes
hesitam entre o desejo de reprimir as agressões infligidas ao patrimônio
público e a preocupação de tirar um benefício fiscal de tais abusos, assim
ratificados.
Na maioria das vezes as relações
entre propriedades privadas e domínio público encontram soluções em cada
cidade. Episódios, como a inscrição de Pompeia, datada do reinado de
Vespasiano, que mencionam tribuno fazendo proceder à restituição de terrenos
públicos usurpados por particulares. Em geral, porém, só a arqueologia permite
perceber esses acasos: a história da insula da caça de Bulla Regia, com suas invasões
bem-sucedidas, mas contidas nos limites coerentes, com suas usurpações excessivas
e reprimidas, sugere a complexidade do fenômeno.
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"A distribuição interna das domus suscita uma questão básica: no essencial, as classes abastadas vivem num quadro arquitetônico fixo, comparável aos palacetes dos notáveis da França moderna, que durante um longo período conheceram poucas transformações?"
De fato, existiram constantes. Muito dessas construções foi feito para durar séculos e passar de geração para geração, além do que, as linhas que caractarizavam as residências da época podiam passar muito tempo sem mudanças. Até arranjos mais frájeis, como mosaicos e peças preciosas do mobiliário se mantinham constantes, passando de geração a geração.
Porém, os espaços interiores das moradias acabam por ser caracterizados pela multiplicidade de remanejamentos, a exemplo da Bulla Regia, que conheceu uma importante modificação de planta. Originalmente, não havia peças entendendo-se a leste, tudo o que existia era um pátio cercado por uma formação de 6x5 colunas (não 6x4, como se encontra atualmente) e os pórticos, que ocupavam toda a largura do lote. Para se construir aposentos na ala oriental foi necessária uma diminuição do pátio de peristilo e o avanço de uma parede externa às custas da rua.
Bulla Regia
A insulla da caça
Outra grande tranformação foi feita também na Bulla Régia, na segunda metade do século IV. O proprietário construiu um andar subterrâneo de dimensões moderadas que, no entanto, acarretou a destruição provisória de grande parte da ala setentrional da residência, o que gerou, além da tranformação de planta, uma mudança na decoração, pois os pisos de mosaico do pavimento térreo acabaram por terem sido trocados.
Subsolo
Como podemos perceber, com tantas reformas, tantos remanejamentos, o que temos hoje são resultados pouco regulares, o que nos resta é fazer questionamentos sobre essas irregularidades. Como interpretá-las? Devemos considerá-las negligências autorizadas pelo fato de que trabalhadores e proprietários se preocupavam poucos com detalhes de execução? Deve-se encará-las como a prova da incompreensão de uma composição arquitetônica clássica?
O andar subterrâneo da casa da caça em Bulla Regia foi construído na época severiana segundo uma planta bastante simples. Podemos comparar esse mesmo andar subterrâneo a um outro de uma casa vizinha, construído um século e meio depois. Esse padrão que podemos encontrar, tanto em plantas, como em decoração, também estimula questionamentos. Seria essa repetitividade mais uma questão de identidade das necessidades das classes dirigentes mediterrâneas, ou um aspecto puramente mecânico do trabalho?
Pois bem, no que se trata do andar subterrâneo da casa de caça, as escavações permitiram compreender a razão real das irregularidades, que foram totalmente pensadas. Havia um subsolo anterior e o peristilo apenas ocupou a área de antigos aposentos. No geral, as reformas foram concebidas por parâmetros de custo-benefício. O quadro de vida das classes dirigentes não é o resultado de uma produção mecânica que aliaria os defeitos da repetição e os inconvenientes da irresponsabilidade ou da incapacidade de se adaptar ao contexto. Na verdade, todas essas construções resultam de programas, certamente mais ou menos elaborados, porém nos quais o comanditário desempenha um papel essencial, decidindo em função de suas necessidades e de considerações financeiras.
Espaços “privados” e “públicos” - Os componentes
da domus
Todos os espaços interiores da domus fazem parte da esfera privada.
Entretanto, assim como a vida no âmbito da casa conhece toda uma gama de
modalidades, do isolamento individual à recepção de grande número de pessoas com
as quais o proprietário pode não ter nenhuma relação íntima, assim também os
espaços da residência caracterizam-se por um grau de opacidade muito variável
em relação ao mundo exterior. É, portanto, cômodo utilizar a dicotomia
privado-público para tentar apreender a natureza dos diferentes elementos que compõem
a domus.
O primeiro problema a enfrentar é
o da maneira como se articulam o espaço da rua e o da moradia. Com freqüência as
grandes domus tem vários acessos, mas sempre existe uma entrada principal, e é
precisamente nesta que se efetua de modo simbólico e concreto a comunicação
entre o interior e o exterior.
Frequentemente um alpendre,
composto de duas colunas que suportam uma cobertura, destaca a importância do
local: espaço ambíguo, que muitas vezes invade a rua e ainda não faz parte do
interior da casa. A ruptura real é marcada pelos batentes da porta.
Imediatamente depois de transpor
a entrada principal, o visitante penetra no vestíbulo, trata-se, na verdade, de
espaço de transição já pertencente à casa, mas onde ele ainda está sujeito a
controles. Vitruvio coloca o vestíbulo entre os aposentos que, nas residências das
pessoas de alta condição social, devem ser espaçosos e magníficos. O vestíbulo
de entrada constitua uma das peças mais vastas, ás vezes também o vestíbulo se
abre para o peristilo por um vão triplo cuja ampla composição corresponde à
divisão das entradas.
Exemplo de vestibulo
Figura 9.
Althiburos, casa dos Asclépios, estado original (M. Ennaifer, La cité d'Althiburos […], Túnis, 1976,
planta v). Atrás da galeria de fachada, três portas: a maior dá acesso ao
vestibulo, as duas outras a pórticos que rodeiam um tanque. O pátio do peristilo
é um jardim: os triclínios estão à esquerda e à direita; no fundo, ou seja, ao
norte, a êxedra de recepção, cujo mosaico ostenta uma coroa agonística.
O peristilo constitui o núcleo das casas ricas. O pátio
central, a céu aberto, é uma fonte de ar e luz para os aposentos vizinhos, mas
a colunata que o rodeia torna-o também um dos lugares por excelência para o
desenvolvimento de uma expressão arquitetônica de alguma amplidão. Nas casas
mais ambiciosas, o peristilo alcança vastas dimensões: mais de 350 metros
quadrados na casa dos Asclépios em Althiburos ou na casa do pavão em Thysdrus;
mais de quinhentos metros quadrados na casa da pesca em Bulla Regia; cerca de
seiscentos metros quadrados na residência dos Laberii em Uthina. A análise
desse lugar apresenta, portanto, grande interesse; ela é mais delicada do que
parece à primeira vista. Atualmente se tende a admitir que o peristilo
constitui o núcleo da parte pública da residência: essa ampla composição
arquitetônica serve para receber os visitantes. A planta das casas confirma tal
asserção: não só o peristilo em geral é acessível diretamente a partir do
vestíbulo de entrada, mas ainda e sobretudo é em sua periferia que se situa a
maioria das salas de recepção. Com suas colunatas, parece, pois, um complemento
essencial das salas destinadas a acolher os hóspedes.
Fontes:
A historia da vida privada. ARIES, Phillippe
www.wikipedia.org.br